DECAPITAÇÃO DOS PROBLEMAS - PARTE II
DECAPITAÇÃO DOS PROBLEMAS
A busca pelo verdadeiro culpado!
Autor: Edgar S. Torrecilhas
PARTE II
Se segunda me trouxe uma semana tranquila, sexta me fez chegar ao inferno, parece até irônico já que o normal é exatamente o inverso. Semana corrida e estranhamente me sentia isolado, não via meus amigos e ao imaginar ter acabado aquele tormento que em minha mente nebulosa se confundia com sonhos, fito por baixo de minha porta duas coisas. A primeira até comum, excrementos de rato, pode lhe parece algo imundo, mas cada um tem o pet que merece concordam? Se vocês gostam de limpar montanhas de fezes eu acho mais fácil limpar pequenos grãos quase inodoros. Ao lado novamente uma carta... Em meus quase 42 anos de vida nunca fui de receber muitas cartas, e nas ultimas semanas já recebi três contando com está.
Na verdade 42 anos de pouca emoção ao que me lembro sempre muito caseiro, vida familiar curta, poucos robes, nenhum vicio, apenas mais um no sistema. Mas talvez minta ao dizer que recebi apenas três cartas, recebi também minhas contas, inúmeras para ser sincero e a carta que consumou meu divórcio, já sabia o que ia acontecer mas nela é que estava escrito como ia acontecer, quando e com quem presente.
Mas naquele momento meu olhar não me traia e realmente existia mais uma carta, que poderia ser apenas mais uma ou outra forma macabra de me envolver em algo doentio.
Ao vê-la um pontar atingiu meu coração, minha coluna petrificou e meus ossos estalaram, seria mais um capitulo de minha amiga ou a carta macabra e a foto não foram um sonho? A duvida me corroía, mas o medo prevalecia. Após quase dois minutos imóvel e clamando por uma luz, até que em um súbito acesso de energia percorri longos passos que me levaram a carta, passos que pareciam se arrastar sob um abismo de duvidas podendo me levar ao outro lado ou desabar no meio do percurso. Mas a carta há imagem de minha ex-esposa morta, na verdade de sua cabeça morta, inundou minha mente, que antes mesmo de perceber o que havia contido naquele envelope já me fazia ruborizar e sentir correr em minha veia não um sangue quente mas um líquido frio e tenebroso. Sem mais delongas abri a carta e para meu pesar mais uma foto e mais um bilhete.
Mais uma cabeça decepada, mais uma vida acabada, desta vez Paulo era a vitima e no bilhete mais confusão em minha mente:
- Mais uma cabeça e menos um rancor, por que fazer esta cara de surpreso se você já sabia que isso aconteceria? Mas desta vez não tente esquecer a carta e a foto. E vamos relembrar o que te aprendes no inicio da escola, vamos contar 1,2... Qual o próximo número?
O desgraçado parecia brincar comigo e mais, parecia saber minhas reações e pensamentos, mas isso não era muito difícil, quem não estaria bestificado com a situação? Mais uma vez pensei em recorrer a policia e mais uma vez este celular imprestável não funciona, não basta a troca de chips e nem de marcas, quando a sociedade capitalista chama ela lhe aprisiona e mesmo que tentes usar de artifícios ela lhe mostrará seu poder, que neste caso era expresso em um simples amontoado de eletrônica. Pensei em ir pessoalmente mas seria uma chacota, isso se me permitissem entrar na delegacia, após meu vexame passado agora policia não seria uma opção, parecia estar em meio a um pesadelo sem fim. Pensamentos, imagens, dor, rancor, um misto de emoções e figuras embaçavam minha vista e me faziam sentir as pernas formigarem como se tivesse mergulhado elas em um formigueiro cheio de saúvas. Sentei-me e por mais estranho que pareça, consegui visualizar a cabeça de minha filha Juliana decapitada com um número gravado em sua testa, era como se antes de acontecer já pudesse vê-la, já que se tratava da próxima vitima provável deste crápula.
Era uma imagem nítida, quase real, acho que foi o temor tomando conta mas aquilo me deixou abaixo de minha existência, pois como isso aconteceria? Alguém ter este sangue frio esta audácia esta... Paulo era um menino ótimo, de boas notas e muitos amigos, um pouco travesso, mas todos nós passamos por está fase. Minha mente era um emaranhado de dúvidas e confusão, a foto, o bilhete e a imagem em minha cabeça, o que a cinco minutos era uma suposição com grande sentimento de esperança no erro se tornará agora uma verdade irremediável.
Se você meu caro leitor está tentando imaginar o que sinto e até a presente linha vem sentindo minha dor e minha angustia, deve no momento estar imaginando o que eu imaginava, bom irei facilitar sua escolha da emoção, pois agora deverá se sentir pasmo, já que foi assim que me senti ao perceber que a porta de minha casa estava entreaberta. Duas fotos macabras de mortes e agora isso? Não estou louco, alguém invadiu minha casa, mas como não ouvi nada? A porta se encontra a um metro e meio de mim, a cerca de 45° do posicionamento da poltrona onde sentei quando tentei reaver meu mundo. Ao me levantar procurei minha arma mais próxima, lembrei-me de navegar na internet e ver perguntar do tipo “se um apocalipse zumbi acontecesse agora, qual seria sua arma?”, nunca dei valor, por motivos óbvios, que tipo de louco daria valor a perguntas como esta? Achei que isto da arma mais próxima seria uma besteira, mas nunca pensei em trazer isso para a realidade. Busquei em torno de mim e achei um abajur de ferro, não era a melhor defesa, mas era melhor do que me defender com uma almofada velha e quase seca, onde a diferença entre ela e uma toalha em grossura não passada dos botões que nela havia. Ao lado da porta vi um rastro de pingos avermelhados, o terror tomou conta de meu ser, não sabia a quem recorrer ou como agir, nas redondezas não era tão simples encontrar uma alma viva sequer, a não ser indivíduos alcoolizados, trombadinhas e jovens sedentos por esperma ou por ejacula-lo, como pude vir morar neste lugar. Segui o rastro com toda coragem que juntei, estava tão bem preparado para o que aparecesse quanto um garoto está para matar seus pais e sua família sem levantar suspeitas e ainda ir à escola.
A linha gotejante de sangue me levou a meu quarto que estava de porta fechada o fato de não de lembrar-me de tê-la fechado já não me incomodava mais. Aproximei-me e preparei meus olhos e pensamento para qualquer coisa, as imagens vinham em minha cabeça agora me dando força, ali deveria estar o cretino que matou meu filho, mas mesmo que não fosse ele, quem invadiu minha casa iria sentir a força de um homem que sente medo, porém o que vi foi algo que nem a preparação mental que forjei para meu olhar e pensamento poderia suportar, o que ali se encontrará iria além da compreensão mundana. Uma imagem fictícia que me surgiu a cerca de três minutos agora era presente, ao abrir a porta seus olhos estavam me olhando, parecia ter medo, eu estava com medo. Meu lençol se encontrava todo ensanguentado e por um segundo esqueci-me de mim e corri para a cama, sem querer acreditar fiquei frente a frente com aquele rosto, sim, Juliana, a cabeça de minha filha sob minha cama como um prato sob a mesa... Era tão bela e agora só o que se podia ver era sua cabeça e seu rosto com aquele olhar de medo e sua face implorando por misericórdia. Gritei com o resto de minha voz que encontrei no fundo da garganta enquanto segurava a cabeça de minha filha e então as lagrimas desciam de meus olhos, rolavam sob meu rosto e terminavam por acariciar a face de minha filha. Meu mundo parou, minha mente se esgotou e meu corpo sucumbiu. Pessoas de branco apareciam agora em minha mente, mas a vista estava turva, vozes me faziam perguntas, o que acontece comigo por que comigo? Acordei e novamente estava deitado em minha cama, a cabeça de minha filha não estava mais lá, nem o sangue e por mais estranho, nem meus temores.
Não consegui unir os pensamentos, seria realmente pesadelo aquilo? Impossível, vivenciei! Alguém estava fazendo aquilo, uma mente doentia e sem escrúpulos, pois quem de bom coração faria um homem já tão só sofrer por passado e ainda mais dar cabo da vida de três pessoas? Busquei por toda casa as duas cartas e algum vestígio daquele sangue de minha pura e adorável pequena, mas tudo em vão. O que me consolava era o fato de que aquilo poderia ser realmente apenas um pesadelo, muito real, mas apenas um pesadelo. Mas minha mente continuava a teimar com aquela possível saída, e me recapitulava as três cabeças decepadas. Porém a incoerência de acordar e não ver nada e até o simples fato de dormir em meio a tudo aquilo me fazia crer que era apenas parte de um sonho, qual sua opinião meu caro leitor?
Seguindo está hipótese continuei a vida, as imagens voltavam, cada vez com menor frequência. Meu trabalho consumia meu tempo, mas minhas noites de sono eram escassas, até mesmo sem lembrar aquelas imagens meus olhos ao serem fechados traziam um clarão inexplicável, enlouquecia com tudo apesar de aos olhos de quem visse, não havia nada. Os últimos dias estavam tão corridos e borrados em minha mente que até meu rato de estimação – sim, aquele ponto já possuía grande apreço pelo bichinho – sumia em meio aquela pequena estrutura chamada de casa.
Rotina quase retomada, fora noites sem dormir, mas em breve entraria de férias e poderia dormir sem culpa. Ai seria só eu e meu rato e mais ninguém! Bom, era isso que eu imaginava que aconteceria, mas não foi bem assim que aconteceu. Em outubro minhas férias, para alguns isso significaria festas, praias e muita curtição, mas para mim dias longos na cama sem mover um musculo eram muito mais proveitosos e divertidos, mas a historia das cartas, das fotos e da cabeça ainda me assombravam com sentimento de culpa e remorso, me sentia culpado, pois não evitei nada daquilo, mas pensando melhor, como evitar? Não sabia que ia ocorrer, não tinha certeza sobre meus filhos, eu estava esgotado, precisava de uma saída, um escape de tudo aquilo ou pelo menos saber a verdade.
Clique e confira: PARTE III