Linha
Por: Álex Batista
Houve um barulho mórbido quando os corpos foram lançados no rio.
Ninguém estava lá pra ver e até as estrelas pareciam se ocultar para não testemunhar aquela cena.
No rosto do assassino, um leve sorriso se desenhava enquanto ele contemplava os corpos deslizarem lentamente pelo leito do rio e seguirem de encontro ao mar.
Era uma noite friorenta, ao menos para a quente área litorânea de Maceió. Não se via brilho algum no céu e um silêncio sinistro pairava sobre o Bairro do Jaraguá.
Por volta das dez horas, Nayanna, Natalina e Marcus, professor das duas garotas, saíram de um evento literário que acontecia no Centro de Convenções do local. O encontro era realizado a cada dois anos e reunia centenas de livros, autores, palestras e diversas formas de entretenimento que, juntos, constituíam a 7º maravilha do mundo para os acadêmicos de letras. Aquelas infinitas linhas literárias os envolviam e os sufocavam de forma doce, e, sair dali, ara como deixar para trás alguém que se amava.
- Deveriam deixar de fazer bienais e fazer diárias! - Os três sorriram com a declaração do professor.
- Consegui pegar autógrafos de dois autores. - Disse Natalina.
- Metida! - Exclamou Nayanna. - Eu ainda consegui de um.
- Eu também peguei o autógrafo de um autor que admiro muito. - Informou Marcus às duas alunas. - Além disso, consegui essa fita com uma mensagem escrita em runas antigas. Fictícias, claro. - As meninas fizeram uma expressão de desdém diante da declaração e depois o elogiaram pela conquista. Elas também paqueraram a bolsa que o professor trazia junto de si, com desenhos de vários livros em sua estampa.
- Vei, nada da Clara. – Perguntou Natalina.
- Nada. Estou esperando a ligação da mãe dela. – Respondeu Nayanna, com uma expressão preocupada.
- Gente isso é muito estranho. A clara não é de desaparecer assim.
Os três Cruzaram os portões e dobraram a esquerda, contornando as grades do imenso galpão. Enquanto caminhavam, ambos discutiam sobre o sumiço da amiga. Com o tempo, a conversa foi direcionada para os livros que ambos já tinham na estante, os que desejavam possuir, os autores marcantes e falta de dinheiro para suprir a compulsão por obras literárias.
Poucas pessoas estavam na rua e dois ou três carros descansavam estacionados rente a calçada na qual eles andavam. Como o frio estava extremamente acentuado e imóvel no local, as duas alunas e o professor cruzavam os braços junto ao corpo e esfregavam as mãos contra os braços no intuito de produzir um pouco mais de calor. A luz dos postes mantinha o caminho nítido.
Viraram a esquerda novamente e Natalina e Nayanna tiveram que abafar um grito involuntário, após quase pisaram num homem deitado no chão que, não fosse os movimentos discreto da barriga que subia e descia, julgar-se-ia estar morto. O professor foi obrigado a chamar as meninas, ainda estancadas em consequência do susto.
A iluminação diminuía à medida que adentravam a rua, seguidos paralelamente pelas linhas do trem que, mortas há alguns anos pelo desuso, não passavam de uma divisória de mão dupla. Inspirados pela visão do homem deitado na rua, eles discutiam, agora, sobre a miséria e o comportamento exclusivo tão presente no seio dos humanos.
A casa de Natalina estava a poucos metros de distância e não havia mais luz na rua. Um vento gélido soprou e era impossível resistir aos arrepios causados por aquela brisa rodeando o pescoço. Os braços se prendiam ainda mais ao corpo. Eles reclamaram da baixa temperatura e, finalmente, chegaram à casa de Natalina. A moradora da casa tocou a campainha e, enquanto esperavam resposta, Nayanna comentou:
- Gente, não paro de pensar na Clara.
- Ela disse que estava bem gripada. Quando falou comigo parecia até que estava sufocada. - respondeu Natalina.
- É uma pena ela não ter vindo, mesmo. A noite foi simplesmente perfeita com a palestra daquele autor de quem ela tanto gosta. - Comentou Marcus.
- Eu sabia que ela estava doente. Ela também falou comigo e disse que, nem que passasse uma semana corizando, ela viria participar da palestra. - Replicou Nayanna. - Mas eu estou pensando mesmo é no fato de não ter conseguido entrar em contato com ela.
- Que demora! - exclamou Natalina e tocou a campainha novamente. Um grito veio de dentro da casa. - verdade Nay. Eu também achei estranho. A mãe dela não retornou pra você, não foi?
- Não.
- Calma gente - interrompeu Marcus. Nesse momento, alguém estava abrindo a porta. - Pode ter acontecido algum imprevisto, o celular dela pode estar descarregado, também. Eu confesso que fiquei um pouco preocupado, mesmo. Pois, como já havia dito a vocês, ela marcou para se encontrar comigo e virmos juntos à Bienal. Esperei quarenta minutos no local marcado e ela não apareceu. Por isso o meu atraso no evento. Vamos acreditar que está tudo bem.
Natalina entrou em casa, sem deixar de reclamar da demora, enquanto Nayanna e Marcus seguiam pela rua escura, acompanhados pelas linhas de trem. Estavam se aproximando da ponte do riacho negro - como era conhecido pela coloração enegrecida devido a toda sorte de imundície e poluição nele lançadas - quando um sujeito estranho se materializou no início da esquina, de frente a eles, aparentemente usando um boné e de cabeça baixa. Nayanna começou a tremer ainda mais, dessa vez pelo medo que tinha da pessoa que se aproximava deles. Marcus tentava a acalmar e, vendo que o rapaz vinha na direção deles, puxou rapidamente Nayanna para um pequeno terreno ao lado deles, para escondê-los.
Com o pânico tomando conta, professor e aluna foram para a parede do fundo que delimitava o terreno. No imenso breu, eles só ouviam seus corações pulsando freneticamente, e os passos do estranho que se aproximava. Nayanna perecia perder o ar e um nó se alargava em sua garganta. À medida que as passadas ficavam mais altas, Nayanna parecia se sufocar um pouco mais. O professor ficou imóvel e aguardava quem quer fosse passar por eles. Tudo parou por um momento quando eles viram aquele espectro passar na frente deles e tamanha foi a alegria quando sentiram que o estranho continuava o caminho e se distanciavam deles.
- Ufa! - exclamou Nayanna! - Pensei que ia morrer agora.
- E você não estava enganada.
Nayanna não teve muito tempo de pensar na frase, pois agora ela sentia uma linha fina envolvendo seu pescoço e, verdadeiramente, roubando seu ar. A tentativa de gritar era inútil, e o professor apertava cada vez mais a fita marcada de runas no pescoço da aluna. Talvez Nayanna tenha ouvido seu professor dizer "Você não queria saber onde sua amiga estava? Então, agora você vai se juntar a ela!", antes de cair inconsciente para a eternidade.
Certificando-se de que a aluna estava realmente morta, Marcus pegou o corpo de Nayanna e envolveu num plástico preto que estava junto do corpo de Clara, ali repousando na perfeita escuridão. Após enrolar o corpo, ele deixou os dois cadáveres descansarem no fundo do terreno enquanto foi se certificar de que ninguém passava na rua naquele momento. Da bolsa que levava consigo, ele tirou um imenso blazer, uma boina e uns óculos escuros para disfarçar sua aparência.
Certo de que o caminho estava livre, ele calculou meticulosamente o tempo que levaria para carregar os dois corpos até a ponte e de lá lançá-los no riacho. Ciente de que tinha menos de dez minutos, ele levou primeiro Clara e o lançou-a rio abaixo. Voltou e, com os braços já cansados, pegou o corpo de Nayanna e o lançou no rio. Olhou sorridente enquanto os dois corpos navegavam no riacho. Num último adeus ele lançou o pequeno fio vermelho com as runas fictícias que diziam: “O rio de nossas vidas deságuam na morte!”.
Fim